Esta tudo escuro, vazio, não vejo absolutamente nada. Estou sozinha, só tenho a minha sombra que já nem sei se existe. Nem eu existo secalhar. Ou pelo menos aquele "eu" que estava habituada a ser já não existe, ou se existe está bem escondido, porque não o encontro em lado nenhum. Secalhar esse "eu" foi para longe, foi com Ele (vamos chamar.lhe Ele). Este "eu" que está em mim já não o conheco, é um estranho, um ser totalmente desconhecido, novo e sozinho. E por mais acompanhado que esteja, este "eu" há de se sentir sempre sozinho, desconfortado, desamparado, porque o que de mais valioso tinha lhe foi tirado.
Sempre minimizei os meus problemas. Não lhes dei a devida importância, achei-os menores, achei-os inexistentes. Mas agora eles aparecem a minha frente, bem reais, corpóreos, sufocam-me e encurralam-me. Não tenho saída possível, eles rodearam-me, encostaram-me, e agora, pela primeira vez, sinto-me perdida, sem resposta, sem reacção. Eles consomem-me, cada vez mais estão cá dentro e não tenho socorro possível, não tenho ninguém a quem decorrer, porque estou sozinha. O meu "eu" foi-se, foi-se quando precisava mais dele. Sinto que não posso confiar em ninguém, os meus amigos subitamente deixaram de me parecer suficientes, não me podem oferecer soluções, não são depósitos de problemas. Sempre foram, mas agora deixaram de o ser, talvez seja uma falha da parte deles ou talvez seja uma falha da minha parte. Tentei, lutei, mas secalhar não me esforçei o suficiente, não sei. Mas agora estou perdida e preciso de ajuda, mas não a tenho, todos me abandonaram. E agora que estou de olhos abertos, estes problemas existem, sempre existiram, eu é que insisti em lhes fechar os olhos, em lhes fechar as portas. Talvez tenha piorado as coisas, eles fortaleceram-se, cresceram, multiplicaram-se e acumularam-se. Agora não tenho uma unica pessoa em quem poder depositar isto tudo porque ela mesma constitui também um problema, de outro género, mas um problema. E assim fico sozinha, frágil, entregue a mim mesma. Sou a única responsável por mim e mais ninguém. Não tenho um pai e uma mãe que me apoiem, que me digam o que fazer, isso já passou. Fui lançada num mundo do qual não sei nada, um mundo odioso e recheado de loucos, puros loucos que não sabem o que dizem, o que fazem ou o que pensam.
Não é justo o que me fizeram. Não é justo terem-me arrastado para aqui, para este canto, para este beco sem saída, escuro e frio. Não é justo terem-me esquecido. Falham e acusam-me a mim. Se todos falham, eu não tenho esse direito? O que tenho eu de diferente deles? Nada. Mas eles não vêm isso, de tão cegos que estão consigo próprios. Não posso estar sempre à espera dos outros, se os outros me estão constantemente a desiludir.
Por isso aqui estou eu, morta de desilusões e fracassos, incapaz de me mexer, raciocinar ou pensar. O meu mundo ruiu, desapareceu, sem rasto. Este mundo é estranho. Não é o meu mundo, não estou no lugar certo. Resta.me partir à descoberta, ir atrás dele, reconquistá-lo. Mas para isso preciso de forças, forças que não tenho de momento.